Talvez ela toque piano ou tocasse quando era pequena. O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela forma. Vem de tantos lugares. O que imaginamos que deve ser bom, o que nos disseram que era bom, o que fizeram em nós e gostamos, o que é involuntário, o que é o nosso jeito de agradar e pronto. Ela goza praticamente em silêncio ou, pensando bem, em silêncio total. E de olhos fechados. Nem um pio. Dá para ouvir as ondas. Disso tudo não esquecerá um único detalhe. Continuará na memória dali a meses ou anos para ser evocado e remeterá somente a ela. Cataloga com espanto renovado as inúmeras maneiras como o mundo é capaz de se descortinar aos seus sentidos. Nada a não ser os rostos se perde. Dália dormindo sem nenhum ruído a seu lado, emanando calor, a bunda encostada no seu quadril, as costas no seu ombro esquerdo, as ondas batendo quase na janela. Vai lembrar de tudo.

Daniel Galera, Barba ensopada de sangue 

repertório de carícias

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