Arquivo mensal: maio 2008

cartas para não mandar

Talvez fosse janeiro. Ou fevereiro. Ou algum dia perdido entre janeiro e fevereiro de 2001. Algum dia onde normalmente fazia aquele calor absurdo e é exatamente assim que a Júlia descreveria aquele dia, caso lembrasse. “Porra, que calor absurdo que tava, aquele dia”, ela diria. Eu viria com mais um daqueles meus papos dizendo que ali, naquela dia perdido, eu tive certeza. Ali, sentado na areia da praia, eu tive a mais assustadora certeza de que precisaria dela pra que tudo que até então fazia sentido, continuasse fazendo.

– Ali eu já sabia que tava fudido.
– Quê? Do que cê tá falando, Marcelo?
– Do dia da praia. De como eu tive a mais absoluta certeza de precisaria de você pro resto da vida. E de como…
– Porra, que calor absurdo que tava, aquele dia
– É. Vou comprar cerveja. Quer alguma coisa?
– Água. Compra água.
– Tá.
– E ração pro casmurro.
– Ok, água e ração pro casmurro.

Ela ficava ali, deitada no sofá, como na maioria dos sábados, lendo alguma coisa. Eu comprava cerveja, sentava no chão, grudava as costas nuas na parede fria e observava. Gostava de pensar que aquilo era o nosso universo particular. O sábado em que nós não faríamos absolutamente nada e ela deixaria a cerveja esquentar, na metade da lata, como sempre fazia. Gostava de pensar que isso era o ápice da vida em casal, o que eu jamais havia sonhado: a lata de cerveja dela esquentando, casmurro na varanda volta e meia latindo e eu observando; desejando de todas as formas possíveis acreditar que aquilo era sim felicidade.