Mínimo esforço

Notou que o mínimo esforço seria suficiente. Então desanimou. Havia se acostumado ao espantoso desgaste físico que a ação provocava. Percebeu que o que o agravada não era tanto o resultado, mas sim o esforço. Pensou então que não fazia sentido continuar, se o esforço fosse mínimo. Gostava mesmo era de sentir as pernas ficarem bambas até o exato momento em que supunha não mais aguentar e daí então ultrapassar tal momento. Era fascinante. Mas não agora, que conseguira fazer sem ao menos sentir dor. Era como se em todas as vezes anteriores o prazer tivesse se camuflado no resultado, quando na verdade prazeroso era o absurdo esforço necessário para executar a tarefa. Fácil assim era absolutamente ridículo; sem sentir as veias das pernas em chamas, saltando multicolores e sem resgastar com a língua os pingos salgados de suor que desciam da testa e estacionavam no buço. Era o esforço que o fazia estar ali, duas vezes por semana, sendo encarado por crianças descrentes e pais o fitando como se assistissem a um filme procurando inverdades e ficções que enfim os fizessem ter a certeza, a reconfortante certeza de que aquilo não era vida real. Ninguém mais aceita o absurdo, pensava.

Resignado, levitou pela última vez naquela noite.

Abandonou o picadeiro.

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Um pensamento sobre “Mínimo esforço

  1. oi lucas,
    gostei muito do texto. me lembrou em partes um artista da fome, do kafka.
    vou vir sempre te visitar.
    beijos.

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