cartas para não mandar
Maio 11, 2008
Talvez fosse janeiro. Ou fevereiro. Ou algum dia perdido entre janeiro e fevereiro de 2001. Algum dia onde normalmente fazia aquele calor absurdo e é exatamente assim que a Júlia descreveria aquele dia, caso lembrasse. “Porra, que calor absurdo que tava, aquele dia”, ela diria. Eu viria com mais um daqueles meus papos dizendo que ali, naquela dia perdido, eu tive certeza. Ali, sentado na areia da praia, eu tive a mais assustadora certeza de que precisaria dela pra que tudo que até então fazia sentido, continuasse fazendo.
- Ali eu já sabia que tava fudido.
- Quê? Do que cê tá falando, Marcelo?
- Do dia da praia. De como eu tive a mais absoluta certeza de precisaria de você pro resto da vida. E de como…
- Porra, que calor absurdo que tava, aquele dia
- É. Vou comprar cerveja. Quer alguma coisa?
- Água. Compra água.
- Tá.
- E ração pro casmurro.
- Ok, água e ração pro casmurro.
Ela ficava ali, deitada no sofá, como na maioria dos sábados, lendo alguma coisa. Eu comprava cerveja, sentava no chão, grudava as costas nuas na parede fria e observava. Gostava de pensar que aquilo era o nosso universo particular. O sábado em que nós não faríamos absolutamente nada e ela deixaria a cerveja esquentar, na metade da lata, como sempre fazia. Gostava de pensar que isso era o ápice da vida em casal, o que eu jamais havia sonhado: a lata de cerveja dela esquentando, casmurro na varanda volta e meia latindo e eu observando; desejando de todas as formas possíveis acreditar que aquilo era sim felicidade.
wake up, dammit
Fevereiro 16, 2008
Ver Cidadão Kane
Janeiro 19, 2008
Há bem pouco tempo atrás, convivia diariamente com a sensação de “estar deixando passar”. Lendo menos livros do que gostaria, estudando menos, conhecendo menos gente, vendo menos filme, ouvindo menos música e indo a menos lugares. Mais é tipo de pensamento que leva o sujeito à loucura, pelo simples preceito de que há sempre mais para ler, mais para ver, mais lugares para conhecer e mais pessoas interessantes no mundo. E aí veio estalo: preocupar-me em excesso com isso só traria frustração.
Passei então a organizar-me de modo que tenha registrado tudo que um dia pretendo ler, filmes que pretendo ver, lugares que pretendo ir, bandas que preciso conhecer melhor. E vou cumprindo ao poucos, tentando não ficar obcecado por informação, mas também não abandonar totalmente meus desejos, por medo de uma “overdose”.
E então randomicamente eu vou lá e compro um livro que sempre quis ler (tô lendo bukowski, velho safado e genial) e risco da lista, mas não sem antes adicionar outras 4500 “necessidades”.
Provavelmente, vou morrer sem toda a informação que acho necessário ter. Mas foda-se. Todo mundo vai.
Mariano
Dezembro 18, 2007
Mariano confere o canhoto comparando os números com os de uma tabela grande, grudada com durex na parede, daquele modo em que a fita adesiva é dobrada e colada em cada uma das extremidades. Uma tipologia grande, vermelha e em caixa alta anuncia: RESULTADO DA MEGASENA. Não acertou nenhum número. 8 milhões. Com 8 milhões, ele pensou, já saindo da lotérica em direção ao estacionamento, com 8 milhões eu poderia deixar de ter o maldito carro 1.0. Comprar uma chácara pros meus pais, um desses lugares no meio do mato onde, quinzenalmente, nos reuniríamos e seríamos felizes.
teu passado virtual te condena
Novembro 17, 2007
Cinco anos blogando e você descobre que teu primeiro blog ainda paira no limbo virtual, hospedado no geocities, vinculado a um email que não existe mais e sem a mínima possibilidade de você lembrar login e senha.

Vergonhoso.


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